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não importa se é real, importa que existe.

Escrito por Cléo De Páris às 10h32
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Meus olhos e os olhos dela
Sou a menina dos olhos lindos, a vida inteira ouvi isso, todas as comparações, elogios, chavecos, invejas, tudo muito sincero. Também acho meus olhos muito bonitos, um pouco tristes, mas bonitos. pale blue eyes. eles me fazem ver.
A Karoll tem olhos lindos também, mas eles não fazem com que ela veja, imagino que ela tenha ouvido falar de seus olhos a vida inteira, como eu, mas de outra forma. A Karoll é cega de nascença. Eu estou ensaiando uma peça nos Satyros, chamada Inocência e minha personagem é cega de nascença.
Um dia, fui assistir o show do Cordel do Fogo Encantado, que nunca tinha visto e é lindo demais... ficava olhando aquilo e pensando como seria pra Absoluta, minha personagem, presenciar aquele momento sem olhos que vissem. Na mesma hora do show, passava na tv um programa sobre cegos e o Zed, meu marido gravou, cheguei em casa e ele insistiu que eu assistisse naquela mesma noite: "Cléo, tem uma mulher incrível! ela não parece cega." Eu assisti e fiquei perplexa com a beleza, o desprendimento, a leveza, a vida, o jeito doce da Karoll, fui dormir e só tinha ela na cabeça. Acordo no dia seguinte, vou pro computador. orkut. sempre tem umas pessoas que adicionam a gente e das quais não sabemos nada, normalmente eu deleto na hora, mas tinha um cara nesse dia sem foto, sem scrap, que eu cliquei, sei lá porque e quando entrei em sua página, ele tinha uma amiga apenas e ela era a Karoll. Ele também não era amigo dela e não sabe ao certo porque me adicionou, tinha visto o programa e feito uma comunidade pra ela, tudo um pouco antes de eu entrar.
Agora nós nos conhecemos pessoalmente, a Karoll e eu. Fui buscá-la no metrô, fomos nos Satyros e ela ficou conversando horas com o elenco, todos hipnotizados pela sua presença. Agora somos amigas e ela vai ver a Absoluta, que se parece muito com ela e talvez venha a se parecer ainda mais, agora que a vida fez isso. Eu falei: "Karoll, é muito difícil pra mim ficar com o olho parado." e ela me disse olhando bem dentro dos meus olhos: "pra mim é difícil olhar nos olhos das pessoas, é a coisa que eu mais sinto falta."
Fiquei uns dias com o olhar perdido, vago, pensando nisso, pensando naquele sorriso gostoso da Karoll, seu rosto lindo, suas idéias articuladas, seu talento e seus olhos que parecem ver. a vida inventa umas histórias loucas pra gente, a vida é bem mais louca do que nós...

Escrito por Cléo De Páris às 23h19
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Do blog do Rodolfo García Vázquez, meu diretor
25/08/2006
Samanta, a de olhos claros na escuridão...
Samanta tem quatorze anos. É uma mulata com a pele mais clara e tem olhos muito claros. E autoridade apesar da idade. Domina sua sala de aula e suas amiguinhas. É sexy. É linda. Tem vários sonhos na vida e não sabe muito bem qual deles vai seguir. O futuro está cheio de possibilidades.
Acabou um namoro que tinha até a semana passada: o menino era o Wagner, de treze anos.
- Aqui na escola tenho um monte de fãs. Mas todos têm um ano a menos do que eu.
Samanta recebeu, no final de semana passado, uma proposta de namoro. O menino a chamou para um canto, numa festa da família na periferia de São Paulo, e disse que ela era a menina mais linda que ele já tinha conhecido, e que queria namorar com ela.
- Não sei se vou aceitar.
- E ele é bonito? - pergunta o desavisado.
- É.
- E como você sabe?
- Eu tenho as minhas fontes. - ela responde.
Ela precisa ter as suas fontes. Afinal, ela é cega. Seus olhos claros são azuis acinzentados e são maiores do que os que a maioria das pessoas têm. Ela tem glaucoma.
- O médico queria arrancar. Queria colocar prótese. Eu não quero usar prótese, eu falei. Eu quero ficar com os meus olhos assim mesmo.
Naquele cinza imenso dos olhos dela, eu tentei entender de onde vinha tanta força, tanta segurança para enfrentar a vida de escuridão em que ela vivia. Olhava então nos olhos azuis também lindos da Cleo, que procuravam uma resposta para tudo aquilo.
- Até os seis anos eu enxergava alguma coisa. Daí recebi a córnea de uma menina de quatro anos, que tinha morrido caindo de um quarto andar, a gente era totalmente compatível. Mas houve um erro médico, e eu perdi o nervo ótico na operação. Minha avó ia processar o médico, mas depois desistiu porque a gente não teria condições.
Era trágica demais a história para a gente não se emocionar. Mas ela falava com uma naturalidade tão assombrosa, que eu nem sabia o que sentir naquele momento. Me perdia nos olhos confiantes, grandes e lindos dela e nos olhos lindos e perplexos da Cleo.Fiquei perdido entre a compaixão, a curiosidade, a dor, a revolta e o medo. Ela me deixou com medo. Um medo não sei de que.
- Agora, eu nunca mais vou poder enxergar.
Com quatorze anos e uma fala tranqüila, ela encerrou a conversa. A dor e a revolta dela já tinham morrido faz muitos anos. E agora restava a tranquilidade e a aceitação dos fatos simples da vida. Uma tranquilidade cheia de tragédia superada, e que encontrou a paz de sentir o prazer de estar viva.
Ficamos eu e a Cléo olhando ela se afastar na sua escuridão, indo para a sua sala de aula. E vamos embora por um outro corredor, onde cruzamos com criancinhas cegas de seis anos do jardim de infância que estão aprendendo a subir uma escada segurando no corrimão.
E passei a tarde pensando nela, na Samanta, a menina de olhos grandes e que sabe o que quer da vida de escuridão em que vive.
Escrito por Cléo De Páris às 01h26
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