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Pueril
 


"...e daí eu parei de acreditar na sorte."

Escrito por Cléo De Páris às 02h55
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a música mais linda do mundo nessa semana

O amor em carne e osso

Pato Fu

O amor, ele mesmo, em carne e osso
Me jurou, prometeu, garantiu que se eu
Que se eu
Eu fosse um bom moço
Eu fosse uma pessoa boa
Eu me divertiria
Eu viveria rindo à toa
Olha só o que me disse um dia, ele
O amor em pessoa



Escrito por Cléo De Páris às 13h04
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LIZ

"SENHOR DOS CÉUS, POR QUE SÃO TÃO INESCRUTÁVEIS OS TEUS DESÍGNIOS?"

Escrito por Cléo De Páris às 05h38
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"Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira."
(Cecília Meireles)



Escrito por Cléo De Páris às 00h13
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pra tirar os chuviscos!

Hoje a Leda me ligou. atendi o telefone e ela disse: "oi, você não
me conhece, eu li ontem seu texto na Revista da Folha e decidi te achar
pra dizer que entendo tudo aquilo, que é uma história parecida com a minha."
A Leda é de Erechim, a 10 km de Barão de Cotegipe, ela mora em São Paulo
com o marido e os filhos há 10 anos e leu o texto que está aí embaixo.
Ficamos um tempão falando de "colonisses" e acho até que ficamos amigas.
ela me convidou pra tomar chimarrão em sua casa na Alameda Franca, vai fazer
chimia de uva pra mim! Disse que eu sou inteira, que tenho uma alma linda, que poucas pessoas
se mostram com tanta pureza e que eu vou crescer muito. Ela me deixou feliz.
E explicou: "sabe por que o papel celofane na tv? pra tirar os chuviscos!". Agradeci.



Escrito por Cléo De Páris às 17h19
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UMA PÁGINA TAMBÉM SÓ PRA MIM...

01/06/2008

Uma caipira da metrópole
por Cléo De Páris

Eu vinha pra São Paulo passar as férias desde os oito anos, mais ou menos. Tinha tios que moravam aqui, adorava eles. Ficava num apartamento na Vila Mariana, tinha um playground bem pequenininho. Ganhei uma camiseta do Corinthians. Dormia num beliche e ficava na janela, ao entardecer, olhando o infinito de prédios. Sentia paz.

Eu era bichinho do mato. Brincava na terra, tomava banho de mangueira, fazia piquenique na beira do rio, pegava bergamota no pé, fugia de cobra, tinha medo de lobisomem. Meu pai matava porco para fazer salame. Na chácara da minha vó, usava penico, o "banheiro" era lá fora, uma casinha com um buraco, a TV era em preto-e-branco, e colocavam um celofane azul ou vermelho ou amarelo, nunca entendi a razão. Eu dormia muito lá, brincava no mato, na plantação de oliveiras do meu avô. Tinha um tonel com azeitonas no galpão, enfiava a mão suja, pegava um punhado e comia. Brincava de namorado e beijava as árvores com ardor, deixando marcas de batom.

Quando me machucava, a vó rasgava um pedaço de lençol velho, colocava banha no corte e fazia um lacinho de flores, era bonito e dava pena de sarar... Ela também fazia pão assado num forno de barro, fora de casa. Nunca comi outro pão igual, meu sabor mais saudoso.

O lanche da tarde era esse pão com chimia de uva e nata ou molho do almoço. A água vinha da fonte, o leite vinha da vaca. Quando tinha temporal, ela acendia vela benta e a cada trovão a gente falava três vezes: "Santa Bárbara, são Jerônimo". Só nesses dias o mundo fazia barulho.

Então, eu vinha pra São Paulo nas férias! Viajava 15 horas de ônibus, pegava metrô, subia e descia escadas rolantes, tinha que esperar o sinal verde pra atravessar a rua, pegava elevador, comia pizza e sorria para as pessoas. Elas também sorriam muito pra mim! Assim que chegava na rodoviária, começava a contar o tempo pra chegar a hora do meu passeio predileto: ir ao Terraço Itália tomar um sorvete de chocolate! Meu pai sempre me levava. Era sempre igual: a gente pedia o sorvete, sentava e ficava em silêncio, olhando para o infinito de edifícios. Eu ficava imaginando cada pessoa em cada janela e pensando qual janela seria minha um dia. Eu sabia que era aqui o meu lugar.

Agora, eu vou passar férias em Barão de Cotegipe! Meu quarto, minhas bonecas, as fotos, os segredos estão todos lá. As vizinhas da minha mãe querem me ver, dizem que estou cada vez mais linda e não entendem como posso morar numa cidade tão grande. Minha mãe faz polenta com galinha que ela mesma cria, meu pai faz salame e vinho.

Converso e me divirto com meu irmão, madrugadas a fio, ouvindo os grilos no jardim. Visito meu avô, sozinho, feliz por me ver, com lágrimas nos olhos e cheio de histórias antigas que gosta de contar pra mim. Volto pra São Paulo com seus cheiros, seus dons, seus ranços, suas manhas e sua loucura. Um abismo, meu palco de concreto que posso amar. Que amo.

Eu sinto paz. Eu sempre volto feliz pro meu lugar.

Cléo De Páris, 36, atriz, é a colunista convidada desta edição. Trabalhou nas peças "A Vida na Praça Roosevelt" e "Inocência", ambas do grupo Os Satyros.


Escrito por Cléo De Páris às 00h48
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UMA PÁGINA SÓ PRA ELA!!!
São Paulo, domingo, 1 de junho de 2008
Mônica Bergamo

Cuba La madre que me parió



Num longo Dior, ela posa no Ipiranga, seu ponto preferido em SP

A transexual Phedra D. Córdoba, atriz e "diva automática" do grupo Os Satyros, de SP, voltará a Havana para estrelar a peça "Lis", 54 anos depois de ter deixado seu país; para ela, "Fidel sempre foi um doidón'

Era 1975 e ela enviou a carta do Rio de Janeiro. Destinatário: seu pai, Horacio Acebal, calle Concordia, número ocho, ciudad La Habana. Escreveu pouco: "Hola, papo. Qué pasa en Cuba?". Pouco depois, chegou a resposta -no mesmo envelope. "Era um carimbo. Carimbo da censura. Mi papo nunca recibió la carta. Nunca."

 

Phedra D. Córdoba não demonstra emoção com a história; ela é enfática. "No puedo negar la madre que me parió." La madre, Cuba, vai recebê-la de volta no próximo dia 15, 54 anos depois da partida. No dia 20, ela estréia em Havana a peça "Liz", com o grupo Os Satyros -onde brilha, desde 2003, como atriz, e atende pelo cargo de "diva automática" da praça Roosevelt, no centro de SP.

 

A diva completou, nesta semana, 70 anos vividos assim: 16 em Cuba, quatro entre países como México, Venezuela, Estados Unidos, Panamá, Costa Rica, Argentina, entre outros, e os demais 50 no Brasil. "Querida, eu soy do mundo! Soy libertina, não só sexualmente, mas na minha arte, nos meus pensamentos. Soy dominante! No quiero que me dominem!", diz, carregando no "portunhol selvagem" para explicar o motivo pelo qual deixou "la madre" -Phedra é transexual.

 

"[Fulgêncio] Batista também no queria homens vestidos de mujer, pero no era uma perseguição. Lembro de um show daquele tempo, "Yo Soy Muñeca". Fidel disse: "Homem vestido de mujer, no quiero en mi tierra!'", conta. Mas ela não se diz contra Fidel: "Soy neutra. Quero paz. Soy como aquela ministra [Dilma Rousseff, da Casa Civil], que disse na CPI: sob tortura, a coragem é mentir. Isso é lindíssimo, querida!".

 

Às seis da tarde de uma terça, a diva aparece na porta de seu apartamento tocando um pandeiro. "Isso é por causa dos orixás", diz. "O candomblé é muito forte em Cuba. Fidel é filho do maior dos maiores, meu bem. É de Xangô [arregalando os olhos]. Ele não conta, claro, querida. Mas eu sei de boa fonte, de cubanos."

 

Embora rejeite se engajar no movimento gay -"Venci sozinha! Deus me perdoe o egoísmo"-, Phedra puxa o assunto de Mariela Castro, filha de Raúl Castro, que protesta contra a homofobia e organizou até parada gay em Havana. ""No me toquen eles [os gays]!", Mariela disse. É maravillosa, supermoderna. Já está conseguindo resultado e é respeitada porque é filha de Raúl", diz.

 

Quando Phedra deixou Havana, antes da Revolução Cubana, não havia ainda "movimento gay" e, desde criança, ela "era um escândalo" para a própria mãe. "Minha mãe queria que eu fosse homem à força. Me levava a una psiquiatra, me dava hormônio masculino, porque yo sempre tive fisionomia feminina." Phedra, então Felipe Rodolfo ou apenas Córdoba, entrou para uma companhia de dança. Sua mãe aceitou que viajasse desde que fosse para formar dupla com uma mulher, Lupi Sevilha, a quem deu todos os poderes sobre o filho. Phedra tinha, então, que pintar costeletas com lápis e vestir-se de homem no palco. "Em 1958, em Buenos Aires, meu namorado levou Walter Pinto [1913-1994, fundador do teatro de revista brasileiro] ao teatro Avenida. De repente, yo entré em cena. E o Walter falou: "Quiero falar com essa bichinha!" Assim mesmo, querida!"

 

Com Walter, ela veio ao Rio de Janeiro e, quando fez 21 anos, "ba-bau": "me vesti de mujer también fora do palco". Trabalhou no Les Girls, espetáculo com travestis, depois foi vedete de Costinha, atriz ao lado de Ewerton de Castro, dançou com Consuelo Leandro... "Soy ícone do Sindicato dos Artistas, querida!"
Em sua casa, um quarto e sala que divide com o gato Primo Bianco, no centro, guarda recortes de jornais e revistas com entrevistas suas -e de Fidel. "Tudo de Cuba, eu leio." Uma bandeira do país decora o armário com o novo computador, ao lado da TV, do ventilador e do guarda-roupa de 30 anos. "Fidel tem seu club-fã e sempre foi um doidón. Alguém tinha que parar os Estados Unidos. Os americanos são uns filhos da puta. Já estive lá várias vezes, mas não gosto. Neste sentido, estoy de acordo com Fidel. Só não estou a favor do comunismo fechado e da homofobia."

 

Phedra e os atores dos Satyros levarão papel higiênico e sabonete para os 15 dias em Cuba. "Todo brasileiro adora Havana. Eu vejo tanta pobreza ali. Me disseram para esconder o dinheiro porque, se eles têm oportunidade, levam. Veja: é porque lá não tem. Um bombom, para eles, é ouro." Sobre a saúde pública de qualidade, ela questiona: "A saúde vai bem, mas isso porque se fala de Habana, que é a capital, entende?".

 

Voltar de vez para o país está fora dos planos. "É mi orgulho, mi vaidade. A mi me custó muito trabalho ter alguma coisa em Cuba. Eu era muito combatida por meu sexo. Era sempre: "Tem talento, mas é muito feminina! Não dá, não dá!". Queria encontrar alguém daquela época para dizer: "Viu como yo no precisei de vocês?"." E, abrindo os braços no ar, Phedra ergue o pescoço para concluir: "Libertad por la borboleta!".



Escrito por Cléo De Páris às 00h46
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Escrito por Cléo De Páris às 00h59
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